O Arsenal é um dos clubes mais avançados do mundo em termos de análise de dados e performance, especialmente sob a gestão de Mikel Arteta. Embora o modelo exato e confidencial do clube não seja público, o fluxo de trabalho e os pilares dos relatórios pós-jogo dos analistas dos Gunners seguem uma estrutura baseada em evidências científicas e princípios táticos rígidos.
Aqui está como os analistas do Arsenal estruturam esses relatórios e no que eles focam:
1. Estrutura do Relatório Pós-Jogo
O relatório é geralmente dividido em três grandes blocos que visam fornecer uma “história” do jogo para a comissão técnica:
Análise Tática e Coletiva
Fases do Jogo: O foco é avaliar se o time cumpriu os “princípios” de Arteta.
Construção (Build-up): Como a bola saiu de David Raya/zagueiros sob pressão.
Pressão (High Press): Eficácia em forçar erros do adversário no campo de ataque.
Transição Defensiva: O famoso “perde-pressiona”. Se o time recuperou a bola em menos de 5 segundos após perdê-la.
Controle de Espaço: Uso de mapas de calor e packing (quantos adversários foram superados por um passe ou drible).
Análise Individual (Player Ratings)
Métricas Técnicas: Passes progressivos, precisão em zonas de perigo e duelos vencidos.
Avaliação Qualitativa: Notas de 1 a 10 baseadas em vídeo, observando posicionamento corporal e tomada de decisão, não apenas estatísticas frias.
Dados Físicos e de Carga (Wellness)
O Arsenal utiliza um sistema que pontua o estresse dos jogadores de 1 a 5 em cinco categorias:
Squelético: Impacto de velocidade e distância.
Metabólico: Acelerações e desacelerações (frenagens).
Cardiovascular: Frequência cardíaca.
Neuromuscular: Resposta muscular ao esforço.
Psicológico: Bem-estar reportado pelo atleta.
2. O que os analistas realmente buscam?
Os analistas do Arsenal (muitos vindos da empresa de dados do próprio clube, a StatDNA) focam em métricas que explicam a qualidade do desempenho, além do placar:
xG (Expected Goals) e xA (Expected Assists): Para entender se o time criou chances de alta qualidade ou se o resultado foi “sorte”.
xT (Expected Threat): Identifica quais jogadores mais levaram a bola para zonas de perigo, mesmo que não tenham dado a assistência final.
Eficácia em Bolas Paradas: Como o Arsenal se tornou uma potência nesse quesito (com Nicolas Jover), o relatório detalha cada bloqueio e movimentação nos escanteios.
Deep Completions: Passes completados dentro de um raio de 20 metros do gol adversário.
3. Exemplo Visual de Foco
Pilar
Foco do Analista
Com Bola
O time conseguiu criar superioridade numérica (overloads) nas alas?
Sem Bola
A linha defensiva manteve a compactação ou deixou “buracos” entre os setores?
Transição
Qual foi o tempo médio de recuperação da posse após a perda?
Individual
O jogador seguiu a orientação tática de “inverter” o posicionamento (ex: laterais entrando no meio)?
Nota: Arteta é conhecido por ser extremamente detalhista. Os analistas costumam preparar clipes curtos de vídeo (de 5 a 10 segundos) para mostrar aos jogadores exatamente onde o posicionamento corporal ou o tempo do passe falhou.
Excelente ideia. Analisar por setor reflete muito melhor a filosofia do Arsenal, onde as “unidades” (grupos de jogadores que atuam próximos) são mais importantes do que as individualidades isoladas.
Abaixo, apresento um modelo de Sumário Executivo Pós-Jogo focado nos três principais setores, utilizando as métricas e a linguagem tática que Arteta e sua equipe de análise priorizam.
Relatório de Performance: Arsenal vs [Adversário]
Objetivo: Avaliar a aderência aos princípios táticos e eficiência por setor.
Setor 1: Unidade de Defesa e Construção (Raya + Linha de 4)
O foco aqui é a segurança na saída de bola e a altura da linha defensiva.
Eficácia da Saída (Build-up): Porcentagem de quebra de linhas na primeira pressão.
Métrica Chave:PPDA (Passes Per Defensive Action). Quanto menor o número, mais rápido o Arsenal recuperou a bola.
Análise Tática:
O goleiro (Raya) conseguiu atrair a pressão para liberar os laterais?
Inverted Fullbacks: O lateral (ex: Zinchenko/Calafiori) ocupou o corredor central com sucesso para criar o 3+2 na base da jogada?
Distância entre Linhas: A defesa manteve-se a menos de 15 metros do meio-campo durante a fase de ataque?
Setor 2: Unidade de Controle e Sustentação (Meio-campo)
O foco é o controle do ritmo e a proteção contra contra-ataques.
Métrica Chave:Field Tilt (Inclinação de Campo). Indica quanto da posse de bola aconteceu no terço final do adversário.
Análise Tática:
Recuperação “Pós-Perda”: Quantas vezes o volante (Rice/Partey) interceptou a bola antes que o adversário cruzasse a linha do meio-campo.
Interiores (Pocket Players): Ødegaard e o outro meia conseguiram receber a bola nas “costas” dos volantes adversários?
Segunda Bola: Eficácia em ganhar rebotes após disputas aéreas no meio.
Setor 3: Unidade de Finalização e Pressão Alta (Atacantes e Pontas)
O foco é a criação de chances de alta probabilidade (xG) e o sufocamento do rival.
Métrica Chave:Deep Completions. Passes ou conduções feitas dentro da área adversária.
Análise Tática:
Isolamento 1v1: Conseguimos isolar o Saka ou o Martinelli em situações de vantagem contra o lateral adversário?
Pressão Final: O centroavante direcionou o início da jogada adversária para as laterais (o “gatilho” da pressão)?
Eficiência em Bolas Paradas: Quantas chances claras foram geradas a partir de escanteios/faltas laterais.
Tabela de KPI por Setor (Exemplo de Dados)
Setor
KPI Principal
Meta
Alcançado
Status
Defensivo
Saída Limpa (%)
> 85%
88%
✅
Médio
Recuperação < 5s
70%
62%
⚠️
Ataque
xG Gerado
1.80
2.15
✅
O “Fator Arteta”: O Detalhe do Vídeo
Além desses números, os analistas anexam clipes de vídeo chamados de “Coachable Moments” (Momentos Treináveis):
Erro de Orientação Corporal: Um defensor que recebeu a bola de costas para o campo quando deveria estar de lado.
Atraso no Gatilho: Um ponta que demorou 1 segundo a mais para iniciar o pique de pressão.